Paola Monteiro afirma que tecnologias digitais, por si só, não tornam uma cidade inteligente e defende articulação entre governo, empresas, universidades e sociedade
A presença de sensores, plataformas digitais, inteligência artificial e sistemas de informação não é suficiente, por si só, para caracterizar uma cidade como inteligente, segundo análise da arquiteta e urbanista Paola Monteiro. Para ela, o debate deve considerar como a transformação urbana digital é governada e como são distribuídas as responsabilidades entre os diferentes atores.
Monteiro afirma que governos, empresas, universidades, organizações da sociedade civil e cidadãos participam da transformação urbana com competências, conhecimentos e capacidades distintas. Na avaliação da autora, participar não significa exercer a mesma função: enquanto alguns atores têm autoridade institucional, outros contribuem com inovação, infraestrutura, recursos, conhecimento técnico ou experiência sobre as necessidades da população.
A análise diferencia governo e governança. O governo, segundo o texto, é responsável pelas atribuições conferidas institucionalmente. Já a governança envolve processos de coordenação e decisão entre diferentes atores, setores e níveis institucionais.
Entre as questões levantadas estão a definição de prioridades no uso de dados, a coordenação do compartilhamento de informações entre sistemas e a distribuição de responsabilidades em projetos que envolvam universidades, empresas, governos e sociedade. O texto também questiona se existem capacidades institucionais para transformar decisões em ações e acompanhar os resultados.
Para Monteiro, o papel do Estado não diminui com a ampliação da interligação entre as cidades, mas se transforma. A autora defende que aumenta a necessidade de capacidade pública para coordenar áreas, estabelecer prioridades e monitorar resultados.
A análise afirma ainda que os municípios brasileiros apresentam diferenças de população, recursos, estrutura administrativa e capacidade institucional. Por isso, uma mesma tecnologia pode produzir resultados distintos conforme as condições de planejamento, implementação e integração às políticas públicas.
Nesse entendimento, a inteligência urbana estaria relacionada à capacidade de articular pessoas, instituições, conhecimentos, recursos e tecnologias em torno de objetivos públicos. A autora conclui que não há um único protagonista na governança da cidade inteligente, mas diferentes atores que podem contribuir, de acordo com suas competências, para converter conhecimento em decisão, decisão em ação e ação em valor público.




